Convite à ação antes do colapso: saúde digital e o PL 5875. São dados a serviço de quem?
A legislação brasileira não pode ter brechas que permitam a monetização dos dados sensíveis em saúde, pressionando ainda mais a natureza pública do SUS. Esta é uma das preocupações centrais por trás da tramitação do projeto de lei n. 5875, de 2013, que pode ser pautado na Comissão de Saúde da Câmara Federal a qualquer momento. Este projeto trata da consolidação da saúde digital e da interoperabilidade no Sistema Único de Saúde (SUS).
De partida, afirmamos que o debate sobre interoperabilidade de dados é, necessariamente, político e que o último substitutivo do PL 5875, de 12 maio de 2026, segue com problemas importantes. O SUS passa por intensa transformação digital e é necessário que a legislação acompanhe este processo. No entanto, o campo sanitário necessita olhar com mais detalhe para o conteúdo deste projeto e também para o processo de aprovação da proposta.
O conteúdo
Há diversos aspectos que merecem atenção, com três destaques:
- Desrespeito à diretriz constitucional de participação social: Ao invés de tratar de participação social, o texto propõe uma “governança participativa”, o que tanto remodela mecanismos participativos já existentes e consolidados, quanto explica a ausência de citação ao Conselho Nacional de Saúde pela redação.
- Lacuna na proteção a dados sensíveis: A monetização de dados tratados pela administração pública (anonimizados ou não) deixa de ser vedada pelo novo texto. Apesar do PL vedar a mercantilização e a comercialização de dados, é necessária menção expressa à proibição de monetização dos dados tratados. Há projetos em curso sobre esse tema sendo conduzidos por empresas públicas que prestam serviços para o Ministério da Saúde – segundo estudos publicados pela Estratégia Latino-Americana de Inteligência Artificial.
- Intensificação do setor privado sobre a saúde: O reforço à ideia de “ecossistema” da saúde como chave de legitimação à cada vez maior participação da iniciativa privada no SUS, que, entre outras coisas, ao “naturalizar” a dinâmica do mercado, oculta relações de poder e interesses voltados a retornos financeiros por meio do SUS. Esta dinâmica foi explicitada por um relatório publicado pela Coalizão Direitos na Rede, que aponta para a progressiva flexibilização normativa quanto ao tema.
O processo
O PL 5875 tramita desde 2013 e já sofreu diversas modificações decorrentes, inclusive, da atualização das demandas vinculadas ao processo histórico de desenvolvimento de tecnologias. Atualmente sob relatoria da deputada federal Adriana Ventura, do Novo/SP, o substitutivo que deve ser votado na Comissão de Saúde da Câmara Federal carece de debate social mais amplo, segundo já defendido pela Recomendação 42 do Conselho Nacional de Saúde. Destaca-se que existem audiências públicas aprovadas para tratar do tema, as quais deveriam ocorrer antes dessa votação. Sendo aprovado na Comissão de Saúde, seguirá com mais força para votação no plenário da Câmara – com maiores possibilidades de aprovação, nesse sentido.
Convite à ação
Interoperabilidade é uma palavra que se esconde no campo da técnica, mas se define politicamente – assim como a contratação da Palantir pela Fundação Butantan, em São Paulo. O Brasil é o sétimo país mais populoso do mundo e conta com um sistema público com capacidade de integrar dados de toda a população. Mesmo que anonimizados, são estratégicos na dinâmica capitalista atual.
A insuficiente proteção de dados sensíveis da população, o desrespeito à estrutura de controle social e participação popular no SUS, e a intensificação do setor privado sobre o sistema são questões que convocam o campo sanitário crítico a olhar com maior atenção ao tema e a exigir que esses pontos sejam aprofundados antes da aprovação do PL.
Quer saber mais?
- PL 5875/2013 – versão de 12 de maio de 2026: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=3127509&filename=Tramitacao-101-PL-5875-2013
- Requerimento de audiência pública sobre o PL 5875/2013, aprovado em 25 de fevereiro de 2026: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2603942
- Recomendação de agendas de debate pelo CNS: https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/atos-normativos/recomendacoes/2024/recomendacao-no-042-de-19-de-dezembro-de-2024
- Interoperabilidade em saúde: https://direitosnarede.org.br/2025/11/25/interoperabilidade-na-saude-brasileira/
- Monetização de dados: https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/drumwave-uma-agenda-obscura/
- Análise sobre o substitutivo de 2025 ao PL 5875/2013: https://analisepoliticaemsaude.org/debate/a-retirada-de-pauta-do-substitutivo-ao-pl-5875-reabre-a-disputa-sobre-o-futuro-da-saude-digital-no-sus-e-evidencia-que-interoperabilidade-e-dados-em-saude-sao-questoes-politicas-nao-merament/
Assinam:
Aluisio G. da Silva Junior
Amanda Xavier
Ana Maria Peres
André Dantas
André Vieira dos Santos
Andrea Penna
Antônio Python Cirino
Ariane Leites Larentis
Arthur Lobo
Beá Tibiriçá
Bruno Chapadeiro Ribeiro
Bruno Elias Penteado
Carla Straub
Carlos G. Gonçalves
Catalina Kiss
Clarissa França
Cristiane L. Simão Lemos
Daniel Gonzaga
Deivison Faustino
Deivisson Vianna D. dos Santos
Douglas B. Rodrigues
Edemilson Paraná
Emerson Merhy
Fabiano Oliveira
Francisco Pedra
Gabriel Simeone
Helena Martins
Heleno Rodrigues Corrêa Filho
Isabel Coronel
Joyce Maldonado
Juliana Martins Pinto
Juliana Roza
Leandro Modolo
Leonardo Carnut
Lucas da Costa Brandão
Luis Gonçalves
Luiz Vianna Sobrinho
Marcelo Fornazin
Márcia Cassimiro
Márcia Ney
Marcos Dantas
Maria Inês Bravo
Mariana Albuquerque
Marilena Correa
Marília Cintra
Rafael Evangelista
Raquel Rachid
Renato Balão Cordeiro
Roberta Dorneles
Rosana Onocko-Campos
Sérgio Amadeu
Sergio Munck Machado
Tatiana de Vasconcellos Anéas
Thauanne Gonçalves
Tica Moreno
Túlio Batista Franco
Valentina Baldo
Walter Lippold
Thauanne Gonçalves
Fabiano Oliveira
Marilena Correa
Roberta Dorneles
Catalina Kiss
Valentina Baldo
Amanda Xavier
Juliana Roza
Márcia Ney
Daniel Gonzaga
Arthur Lobo
Andrea Penna
Carlos G. Gonçalves
Ana Maria Peres
Maria Inês Bravo
Sergio Munck Machado
Roberta Dorneles
André Mendonça (IMS)
Daphne Rattner – ReHuNa (Rede pela Humanização do Parto e Nascimento)
